O dia da ressaca
Hoje pela manhã encontro uma vizinha de prédio que
batia panelas durante as manifestações pró impedimento. Entra no elevador. Dou
um bom dia. Responde timidamente e baixa o rosto. Percebo tristeza, baixa
estima. Olho discretamente para aquela mulher sofrida que acreditou que mudando
o governo mudaria tudo. Vejo uma mulher que já foi classe média alta, mas que, como eu, sofreu os revezes da crise
mundial.
Eu a via todos os dias no hall de saída quando ia
comprar o pão. Ela sempre comentando em alto e bom tom sobre a “saída da ladra, corrupta e sua corja
petista!”
Certa vez ela se dirige a mim. Brinquei “que se ela
continuasse batendo panelas, ela só ia furá-las e depois teria que comprar
outras novas”.
E ela, na bucha da sua arrogância para que as outras
pessoas ouvissem em alto e bom tom:
- Você não bate panelas?
Respondi:
- A crise já está muito brava pra acabar com as únicas
enferrujadas que tenho.
De pronto ela jocosamente se dirige aos outros, se
referindo a mim:
- Ah, esse aí é petista!!!
Risada geral. Minha e do restante. A partir desse
dia ela me nomeou “petista do prédio”.
Nas manhãs, quando eu passava pra comprar o pão (a
maldita massa que adoro e me engorda), sempre percebia os comentários e
risadinhas. Mesmo assim dava bom dia, educado que fui pelos meus pais.
.....
Hoje a encontro de rosto baixo. Sem maldade, pergunto se ela
esta contente com o novo governo agora que tudo se deu como planejado. Ela me
olha. E me responde entre revolta e tristeza:
- Não! Assumiu um bando de ladrões piores do que "eles" (petistas). E não em uma mulher lá...
Brinco:
- Melhor assim. Pelos menos a gente não vai
precisar acabar com as nossas panelas.
Rimos. Chegamos ao térreo. Ela sai
cabisbaixa rumo à garagem. Entra no carro e, ao passar por mim, sorri. Foi embora com a certeza de que eu não a repreenderia, afinal cada um de
nós é fruto de escolhas e opiniões. E elas têm que ser respeitadas.
Eu fui contra o impedimento, o que não quer dizer que seja PT, mas justamente porque eu sabia quem ia assumir – que ela nem tinha percebido.
Eu fui contra o impedimento, o que não quer dizer que seja PT, mas justamente porque eu sabia quem ia assumir – que ela nem tinha percebido.
Acho que hoje a minha vizinha descobriu a outra
face do ser humano: a solidariedade e o respeito pela opinião alheia. Porque
deixei bem claro que ela quiser conversar sobre isso, estou aqui sempre.
.....
Após o (pré) impedimento ando nas ruas e vejo
rostos sem pátria, como a observar a ressaca do dia anterior. Ouço vozes a
falar e comentar que poderia ter sido pior. Fico imaginando os milhões de
brasileiros que não perceberam o que se passou no país e somente agora caíram
na real. Eu estou tranquilo.
Não tenho o poder de mudar o mundo, mas tenho o
poder de mudar a mim mesmo. E minha postura pode ajudar a mudar alguns que
podem mudar outros.
E que venha o novo velho Brasil!
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